Na Casa Hacker, entendemos que a educação também se constrói a partir das relações com o território onde vivemos. É nesse sentido que desenvolvemos um projeto de formação com educadores de uma instituição localizada na Vila Brandina, em Campinas. O trabalho aborda três eixos principais: habilidades digitais, segurança digital e educomunicação, buscando apoiar os educadores na construção de práticas pedagógicas que dialoguem com a realidade das crianças e dos adolescentes atendidos pela instituição.
A educomunicação articula educação e comunicação, reconhecendo que os processos educativos envolvem formas de expressar ideias, compartilhar conhecimentos e produzir sentidos. Nessa perspectiva, a comunicação não se limita ao uso de mídias como recursos para apresentar conteúdos. Ela envolve criar condições para que diferentes pessoas possam narrar suas histórias, discutir questões que atravessam suas vidas e produzir conhecimentos sobre a realidade em que estão inseridas.
A partir dessa compreensão, nosso trabalho foi apoiar os educadores na construção de práticas que articulam a aprendizagem baseada em projetos, a inclusão digital, a segurança digital e a comunicação, tomando o território como referência. As formações começaram com discussões sobre a aprendizagem baseada em projetos e sobre como organizar propostas que partam de questões reais, envolvam investigação e resultem em produções com uma finalidade definida.
Ao longo dos encontros, trabalhamos habilidades digitais básicas, segurança digital e possibilidades de produção de peças de comunicação, como vídeos, sites e cartazes. Mais do que ensinar o funcionamento de ferramentas, buscamos discutir como esses recursos poderiam ser utilizados para pesquisar, organizar informações e comunicar ideias. A segurança digital também foi abordada como parte desse processo, considerando os cuidados necessários no uso das tecnologias e no compartilhamento de informações.
Grupo de Educadores na Formação
Formação de educadores para diferentes faixas etárias
Uma especificidade do projeto foi a diversidade de idades atendidas: as atividades envolviam crianças a partir dos seis anos e adolescentes de até quinze anos. Essa diferença exigiu a elaboração de propostas adequadas às características de cada faixa etária, considerando os conhecimentos prévios, as formas de expressão e as possibilidades de aprendizagem dos grupos.
A pesquisa de opinião como prática de aprendizagem
Para concluir o percurso, os educadores desenvolveram com as turmas uma pesquisa de opinião sobre questões relacionadas à comunidade. O trabalho começou com a escolha de um tema, seguida pelo estudo do assunto, pela elaboração das perguntas do questionário e por sua aplicação. Depois, os grupos passaram à análise das respostas, buscando compreender o que os dados revelavam sobre o território investigado.
A última etapa consiste na produção de uma peça de comunicação para apresentar os resultados à comunidade. Para isso, os participantes precisam decidir quais informações são importantes, como organizá-las e quais recursos utilizar para torná-las compreensíveis ao público. A socialização está prevista para o final de novembro e será uma oportunidade de compartilhar as percepções das crianças e dos adolescentes sobre o lugar onde vivem, incluindo aquilo que valorizam e o que consideram que precisa melhorar.
Essa etapa permite colocar em prática os conhecimentos desenvolvidos durante as formações. A elaboração dos materiais mobiliza habilidades digitais; a organização e a interpretação das respostas exigem leitura crítica das informações; e a produção das peças de comunicação demanda escolhas sobre linguagem, público e finalidade. Ao mesmo tempo, a pesquisa concretiza os princípios da aprendizagem baseada em projetos, pois parte de uma questão, envolve diferentes etapas de investigação e resulta em uma produção que será compartilhada para além do grupo.
O papel dos educadores na construção coletiva
O percurso também cria oportunidades para refletir sobre o papel dos educadores. Nesse processo, eles atuam como mediadores, apoiando os grupos na formulação de perguntas, na organização da investigação e na interpretação dos resultados. Isso exige acompanhar as decisões dos participantes, levantar novas questões e oferecer orientações sem retirar deles a possibilidade de participar ativamente da construção do trabalho.
A pesquisa de opinião, portanto, não é apenas uma atividade de encerramento. Ela articula os diferentes conteúdos trabalhados ao longo do ano e permite que os educadores experimentem uma proposta pedagógica na qual tecnologia, investigação e comunicação estão relacionadas. Ao mesmo tempo, possibilita que as crianças e os adolescentes produzam conhecimentos sobre seu território e encontrem formas de compartilhá-los com outras pessoas.
Educomunicação para compreender e transformar o território
Na Casa Hacker, entendemos que trabalhar com habilidades digitais vai além de ensinar o uso de ferramentas. Trata-se também de ampliar as possibilidades de buscar informações, interpretar a realidade e comunicar aquilo que se aprende. No projeto da Vila Brandina, essa perspectiva se concretiza na relação entre a formação dos educadores e o desenvolvimento de uma pesquisa que parte das questões da comunidade.
Ao compartilhar os resultados, as crianças e os adolescentes terão a oportunidade de apresentar suas percepções e contribuir para o diálogo sobre o território. Para os educadores, o processo representa a possibilidade de desenvolver e avaliar práticas que integrem aprendizagem baseada em projetos, inclusão digital e educomunicação. Assim, a comunicação deixa de ser apenas um recurso utilizado nas atividades e passa a fazer parte do próprio processo de investigação e produção de conhecimento.
Referências
FREIRE, Paulo. Extensão ou comunicação? Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2011.
SOARES, Ismar de Oliveira. Educomunicação: o conceito, o profissional, a aplicação. São Paulo: Paulinas, 2011.
